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Testemunho do Sr. Padre da Freguesia de S. Pedro da Cova
SARS-CoV-2
Posto assim por escrito, parece um modelo A nossa vida fica muitas vezes assim, vazia e sem
novo de automóvel ou um programa de computa- cor mas, para isso temos as flores, para nos lem-
dor na sua 2.ª versão mais avançada. Mas não é. É brar que, afinal, estamos na Terra para dar ao
o nome mais científico do vírus que tem provocado mundo um pouco de cor e de perfume. Insisti que
esta pandemia que nos tem contagiado a todos. a igreja fosse decorada com muitas flores na Pás-
coa para que não nos esquecêssemos disso. Ho-
Na verdade, a maior parte de nós ainda não
foi realmente contaminada com o vírus mas todos je, já voltou quase tudo ao habitual, mas parece-
sofremos com a pandemia. Mas não sofremos to- me que ficamos um pouco sem primavera. E isso
dos por igual. dói.
Ao princípio, ainda pensei que ia ser uma 3.ª que talvez precisemos de estar mais
experiência verdadeiramente democrática porque atentos ao que não vemos. É estranho andarmos
os vírus, e outros bichos parecidos, não costumam cheios de medo por causa de uma criaturazinha
fazer grandes distinções entre pessoas. Mas, não é minúscula que não se mostra e de quem temos
verdade. Alguns ficaram muito mais confinados do dificuldade de nos defender. Isto faz-me lembrar
que outros porque vivem em espaços pequenos, que na nossa vida há muitas coisas que não se
ficaram com os seus rendimentos confinados e têm veem, muitas mais do que imaginamos e quase
poucos recursos para gerir um afastamento… Afi- sempre lhes damos muita pouca importância; e só
nal, vivemos de modo diferente esta pandemia. nos dedicamos ao que nos é imposto pelos olhos
e pelos ouvidos. Ora, o mais importante é
Dizem por aí que há muitas lições a tirar “invisível aos olhos”, disse a raposa ao principezi-
deste tempo… Penso que seja verdade. Mas não nho.
tenho a certeza que sejamos capazes de aprender.
Eu já estou habituado a ver que o coração e a sa- Depois de ter pensado um bocadinho, tal-
bedoria humana crescem muito devagar. Tenho em vez sejam estas as lições mais importantes que
minha defesa que a humanidade já atravessou tan- tenho de tirar deste tempo. Provavelmente vou
tas atrocidades e ainda aprendeu tão pouco. Basta esquecê-las rapidamente, como todos. Mas talvez
olhar para o desgraçado século XX… com um pequeno esforço, quando olhar para os
que vivem sempre no medo, haja ou não pande-
Mas há três lições que eu tenho aprendido: mia, que vivem sempre de olhar indigente, me
1.ª que os outros nos fazem muita falta. Eu lembre que um dia também eu quis sair de casa e
já sabia, em teoria, que não podíamos viver uns não pude, quis visitar um amigo doente e não me
sem os outros mas, por vezes, queixava-me do ba- deixaram, quis chorar a morte de um amigo e tive
rulho das crianças e do tagarelar das mulheres. de o fazer sozinho, quis ser abraçado por um ami-
Como isso me tem feito falta! Hoje anseio por ouvir go e esse desejo só nos distanciou… Sim, houve
os gritos das crianças a correr, é uma música que muitas coisas neste tempo que nos doeram.
me tem feito muita falta. Mas amanhã, tudo isto pertencerá ao pas-
2.ª que as flores me fazem muita falta. Co- sado e, espero, ficarão só as lições e as alegrias
mo todos sabem, os cemitérios estiveram fechados que poderemos tirar delas.
quase dois meses. As flores foram apodrecendo e
só ficou a mármore fria.
Pe. Fernando Rosas Magalhães
GIZ NEGRO / Jornal Escolar 6

