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#maio2020


                     Testemunho do Sr. Padre da Freguesia de S. Pedro da Cova



         SARS-CoV-2
                Posto assim por escrito, parece um modelo      A nossa vida fica muitas vezes assim, vazia e sem
         novo  de  automóvel  ou um  programa  de  computa-    cor mas, para isso temos as flores, para nos lem-
         dor na sua 2.ª versão mais avançada. Mas não é. É     brar  que,  afinal,  estamos  na  Terra  para  dar  ao
         o nome mais científico do vírus que tem provocado     mundo um pouco de cor e de perfume. Insisti que
         esta pandemia que nos tem contagiado a todos.         a igreja fosse decorada com muitas flores na Pás-
                                                               coa para que não nos esquecêssemos disso. Ho-
                Na verdade, a maior parte de nós ainda não
         foi realmente contaminada com o vírus mas todos       je, já voltou quase tudo ao habitual, mas parece-
         sofremos com a pandemia. Mas não sofremos to-         me que ficamos um pouco sem primavera. E isso
         dos por igual.                                        dói.
                Ao  princípio,  ainda  pensei  que  ia  ser  uma      3.ª  que  talvez  precisemos  de  estar  mais
         experiência  verdadeiramente  democrática  porque     atentos ao que não vemos. É estranho andarmos
         os vírus, e outros bichos parecidos, não costumam     cheios  de  medo  por  causa  de  uma  criaturazinha
         fazer grandes distinções entre pessoas. Mas, não é    minúscula  que  não  se  mostra  e  de  quem  temos
         verdade. Alguns ficaram muito mais confinados do      dificuldade  de  nos  defender.  Isto  faz-me  lembrar
         que  outros  porque  vivem  em  espaços  pequenos,    que  na  nossa  vida  há  muitas  coisas  que  não  se
         ficaram com os seus rendimentos confinados e têm      veem,  muitas  mais  do  que  imaginamos  e  quase
         poucos recursos para gerir um afastamento… Afi-       sempre lhes damos muita pouca importância; e só
         nal, vivemos de modo diferente esta pandemia.         nos dedicamos  ao que nos é imposto pelos olhos
                                                               e  pelos  ouvidos.  Ora,  o  mais  importante  é
                Dizem  por  aí  que  há  muitas  lições  a  tirar   “invisível aos olhos”, disse a raposa ao principezi-
         deste tempo… Penso que seja verdade. Mas não          nho.
         tenho a certeza que sejamos capazes de aprender.
         Eu já estou habituado a ver que o coração e a sa-            Depois de ter pensado um bocadinho, tal-
         bedoria humana crescem muito devagar. Tenho em        vez  sejam  estas  as  lições  mais  importantes  que
         minha defesa que a humanidade já atravessou tan-      tenho  de  tirar  deste  tempo.  Provavelmente  vou
         tas atrocidades e ainda aprendeu tão pouco. Basta     esquecê-las rapidamente, como todos. Mas talvez
         olhar para o desgraçado século XX…                    com  um  pequeno  esforço,  quando  olhar  para  os
                                                               que vivem sempre no medo, haja ou não pande-
                Mas há três lições que eu tenho aprendido:     mia,  que  vivem  sempre  de  olhar  indigente,  me

                1.ª que os outros nos fazem muita falta. Eu    lembre que um dia também eu quis sair de casa e
         já  sabia,  em  teoria,  que  não  podíamos  viver  uns   não pude, quis visitar um amigo doente e não me
         sem os outros mas, por vezes, queixava-me do ba-      deixaram, quis chorar a morte de um amigo e tive
         rulho  das  crianças  e  do  tagarelar  das  mulheres.   de o fazer sozinho, quis ser abraçado por um ami-
         Como isso me tem feito falta! Hoje anseio por ouvir   go e esse desejo só nos distanciou… Sim, houve
         os gritos das crianças a correr, é uma música que     muitas coisas neste tempo que nos doeram.
         me tem feito muita falta.                                    Mas amanhã, tudo isto pertencerá ao pas-
                2.ª que as flores me fazem muita falta. Co-    sado e, espero, ficarão só as lições e as alegrias
         mo todos sabem, os cemitérios estiveram fechados      que poderemos tirar delas.
         quase dois meses. As flores foram apodrecendo e
         só ficou a mármore fria.


                                                                             Pe. Fernando Rosas Magalhães









         GIZ NEGRO / Jornal Escolar                                                                                                                                                                                     6
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